Língua Portuguesa

LUZ, AMOR E ESPERANÇA

Sri Raghavan Iyer – EUA

SRI 3 yes

O autor  

Primeiro, criou-se a Luz - a primeira emanação do Supremo. E a Luz é a Vida, como afirma o evangelista e o cabalista. Ambas são eletricidade - o princípio da vida, a anima mundi, permeando o universo, o vivificador elétrico de todas as coisas. A Luz é o grande mago Proteano. Sob a vontade divina do arquiteto, ou melhor, dos arquitetos, dos "Construtores" (chamados coletivamente “Uno”), suas múltiplas e onipotentes ondas deram origem a todas as formas e a todos os seres vivos. Do seu peito elétrico, brotam a  matéria e o espírito. Dentro de seus raios jaz o início de toda ação física e química, e de todos os fenômenos cósmicos e espirituais. Vitaliza e desorganiza. Dá vida e produz a morte. A partir de seu ponto primordial, surgem gradualmente a miríade de mundos e corpos celestes visíveis e invisíveis.

     A Doutrina Secreta, i 579  

O mantram metafísico "Luz é Vida e ambos são eletricidade" sugere uma introspecção profunda que é realizada apenas nos níveis mais altos de meditação. Esvazie a mente de todos os objetos e assuntos, todos os contrastes e contornos, em um mundo de nomes, formas e cores, e alguém poderá mergulhar na absoluta Escuridão Divina. Uma vez neste reino de puro potencial, pode-se apreender o númeno oculto da matéria, a substância suprema ou substrato primordial que é a soma total de todos os objetos possíveis de percepção de todos os seres. Ao mesmo tempo, pode-se apreender o Espírito como a totalidade de todas as expressões, manifestações e radiações possíveis de uma energia divina central ou Luz. Naquela Escuridão Divina, o reino de potencial ilimitado em que não existe nada, o amor é como a Luz que está oculta na Escuridão. Essa Luz é a origem de tudo o que está latente, de tudo o que sempre emergirá e persistirá, tudo o que partirá da forma e ainda permanecerá como raios imaculados.

Esse reino primordial da Luz e da Vida potenciais também é o reino da energia potencial. Neste reino pré-genético, em que não há manifestação, pode-se apreender uma energia totalmente potencial que não produz nenhuma interação entre o Espírito latente e a matéria numênica. Isso não é eletricidade em nenhum sentido manifesto, nem qualquer força que possa ser interpretada em termos de linguagem comum ou percepção de senso comum. É uma corrente primordial. Mesmo as concepções mais abstratas da ciência pura não podem alcançar esse reino, em que há uma vibração elétrica cósmica tão fundamental e onipresente que não pode ser localizada ou caracterizada de nenhuma maneira específica. Fora dessa Escuridão Divina - desta luz potencial, vida latente e energia oculta - ocorre uma manifestação. Há um processo de radiação e emanação no qual inúmeras faíscas voam. E também há uma coalescência do raio primordial inicial da energia da luz e das correntes de vida latentes que liberam pulsações, radiações e correntes que fluem em todas as direções.

Neste estágio do cosmos incipiente, Gupta Vidya afirma a presença de grandes seres, grandes mentes e corações, grandes almas aperfeiçoadas em períodos anteriores da evolução. Permanecendo acordados durante a longa noite de não manifestação - ainda sem nenhum objeto específico de referência e nenhuma concepção particular no estado de Mahapralaya - eles permaneceram em um estado de contemplação vigilante, incessante e harmonioso. Esses seres emergem com o surgimento da Luz e da Vida primordiais - a reverberação primordial da energia divina por toda a essência vítrea do espaço. Eles se tornam o instrumento de focalização naquilo que passa a ser conhecido como Mente Universal ou Mahat. Tornam-se as lentes vivas através das quais tudo o que é latente na noite da não manifestação é despertado para a vida ativa. Esses seres aperfeiçoados, que são posteriormente mitificados em todas as religiões do mundo como Dhyani Buddhas, Arcanjos e Senhores da Luz, tornam-se agentes autoconscientes e se concentram em um mundo emergente de particularizações primárias de uma essência que, de outra forma, é universal, puramente potencial e inteiramente homogênea. Pela meditação, tais seres podem ser vistos como seres que emitem raios de cor e sons dentro de escalas musicais transcendentais. Por sua vez, pode-se pensar neles como seres pertencentes a sete classes, cada uma correspondendo a uma nota subliminar ou a uma cor. Cada um deles corresponde a um número ou grau específico de diferenciação e todos trabalham em unissonância. Pode-se imaginá-los como seres que têm suas próprias notas, cores e números diferenciados, mas também como seres que unem e sintetizam as múltiplas potências do Logos manifestado. Nesse estado ontogeneticamente anterior, logo antes da manifestação, há um tremendo campo sutil, uma energia elétrica pré-cósmica que às vezes é chamada Daiviprakriti - a Luz numênica do Logos.

No mundo da manifestação visível, os fenômenos que são identificados como eletricidade e magnetismo, luz e calor, são efeitos observáveis dessa radiação “Logoica” primária. Por mais gigantescos e titânicos que sejam, são simplesmente sombras da matéria supersensível em movimento em um plano numênico antes do reino dos fenômenos. O estudo da energia da luz na manifestação envolve curvas e relacionamentos complexos e requer o uso de muitas categorias e instrumentos. Este é o domínio da difração e difusão, de reflexão e refração, em que existem possibilidades complexas devido à interferência e sobreposição de ondas em ondas de energia luminosa. É simultaneamente o reino dos fótons, partículas de energia de luz viajando a uma velocidade incrível, de tal forma que a luz da lua chega à terra em um segundo. A noção de luz como uma agência complexa, embora virtualmente instantânea, com impacto em todos os níveis do cosmos, mexe com o coração muito antes de poder ser verdadeiramente compreendido pela mente. O coração entende o significado da vida porque ele ecoa com o que é primordial, onipresente e instantâneo. Dentro de cada coração humano, acende um fogo de luz-sabedoria e amor-compaixão, Prajna e Mahakaruna. No começo, essa faísca do “Fogo Uno” apenas cintila no neófito, mas pode se tornar uma chama poderosa que queima vigorosamente, de forma constante e incessante. Em sua plenitude, dirige e guia os indivíduos na aplicação expansiva e sábia da energia ilimitada que flui da insondável relação entre amor-compaixão e luz-sabedoria dentro do coração espiritual. O coração monádico de todo ser humano é um espelho do coração do cosmos, aquele peito do qual emerge a corrente dupla de matéria espiritual.

O sexto princípio no homem (Buddhi, a Alma Divina), embora um mero sopro, em nossas concepções, ainda é algo material quando comparado ao divino "Espírito" (Atma) do qual é o portador ou veículo. Fohat, na sua capacidade de AMOR DIVINO (Eros), o Poder elétrico da afinidade e simpatia, é mostrado alegoricamente ao tentar trazer o puro Espírito, o Raio inseparável do UNO absoluto, para a união com a Alma: os dois constituem no Homem a MONADA e, na Natureza, o primeiro elo entre o sempre incondicionado e o manifestado.

A Doutrina Secreta, i 199

A presença desta divina Luz, Fogo e Chama dentro do coração secreto significa que todo ser humano é capaz de ver e iluminar uma esfera de existência muito mais vasta do que ele ou ela normalmente está preparado/a. Da mesma forma, todo ser humano tem uma capacidade de amor espontâneo e altruísta que vai muito além do que se pode imaginar. Um amor que nada pede e que muito pode dar - livremente, graciosamente e generosamente. No entanto, pouco desse imenso amor e energia da luz tem a chance de surgir em um mundo de máscaras e sombras, um mundo de mentiras, medos e solidão. Essa é a situação da humanidade. No entanto, essa mesma humanidade órfã, que mal começou a usar uma fração minuciosa de seu potencial sem limites, pode fazê-lo se procurar sustentar uma concepção de existência que vá além de todas as divisões e dicotomias habituais. É preciso transcender distinções como juventude e velhice, papéis sociais e rótulos externos. Embora a mente tenha ficado embotada e o coração machucado, devemos desaprender todos os hábitos sufocantes e tornar-nos capazes de retirar a mente e o coração de alianças falsas e fugazes. Somente assim é possível restaurar a plasticidade e a resiliência da mente e do coração.

Em diversas sociedades, em épocas diferentes na história registrada, muitas pessoas tentaram enfrentar esse desafio adotando uma disciplina monástica sistemática. Tentaram ajudar-se mutuamente e vincular-se a votos, promessas e regras inexoráveis. Através de um reforço repetido dessas resoluções fundamentais, procuraram desenvolver um modo de vida voltado para a autorregeneração espiritual. No entanto, apesar disso, como ocorrido repetidas vezes na história, essas instituições monásticas floresceram por um tempo e logo caíram em declínio, invariavelmente. Perdeu-se o impulso vital e as pessoas se prendiam apenas na imitação, no jogo e no ritual. A lição desse padrão repetitivo é que por maior que seja a organização externa, não pode funcionar, a menos que seja acompanhada por concentração e continuidade suficientes de ideação através da meditação interior. Não se pode forçar outro ser humano a se tornar um homem ou mulher de meditação. Um ser humano tem que sustentar um desejo de fazer isso que seja suficientemente forte para permitir que ele perceba o que é falso e enganoso neste mundo.

Cada ser humano deve, individualmente e profundamente, refletir sobre o significado da morte e sua conexão com o momento do nascimento. E cada um deve tomar para si uma decisão que permita empreender um conjunto de práticas espirituais de livre escolha. Às vezes, tais práticas serão extremamente exigentes e podem ser sustentadas apenas por um momento de motivação extrema. Como todos os maiores benfeitores da humanidade ensinaram, devemos estar prontos para desistir de tudo pelo bem do todo. A menos que se libere uma motivação universal, enraizada no amor por toda a humanidade, não se pode permanecer no Caminho espiritual. Correr em direção a qualquer pretensão de que se ama a todos é fatal. Embora leve tempo, o que se deve fazer é insistir na natureza sublime e extraordinária dessa motivação fundamental e abrangente, representada pelo Juramento de Kwan-Yin e pelo voto do Bodhisattva. Somente através dessa motivação, autenticamente liberada e mantida intacta, pode haver um despertar da centelha da bodhichitta.

O amor redentor da parte pelo todo brota da alma imortal. É de origem imortal e é a parte do indivíduo no que é universal e imortal. Por trás de todas as modificações e manifestações de prakriti, existe Purusha - o único Espírito universal indivisível conhecido por muitos nomes. É indestrutível, sem começo e sem fim. É em si um reflexo primitivo da própria essência das Trevas Divinas. O poder do amor é a centelha (ou raio) desse Espírito dentro de toda alma humana. Pode iluminar a mente e o coração até que a pessoa esteja pronta para desistir de tudo, disposta a ficar sozinha, com uma só mente e com um único objetivo. Então esse amor se torna uma forma de sabedoria, um raio de luz. Esse amor nos conforta nas horas de necessidade, melancolia e desgraça, lembrando-nos de  que há esperança. Ele nos diz para onde ir e o que fazer. Se devemos ficar de pé e esperar. Dá-nos uma imensa paciência, pela qual se pode reconhecer as tendências que atrapalham a liberação da energia espiritual. Isso acontece na natureza inferior que deseja agarrar e aproveitar. E que também é ao mesmo tempo insegura, inconstante, incerta, que deseja algo externo. Para liberar nosso lado mais forte, é preciso aprender a esperar, a abandonar e desgastar o nosso lado mais fraco.

Enquanto isso, antes que alguém seja capaz de liberar a verdadeira força do coração, e enquanto ainda estiver nas garras daquilo que é mais fraco, pode-se aprender. Pode-se descobrir os padrões, as instabilidades e as vulnerabilidades da própria natureza. Esse processo de aprendizagem diagnóstica não pode, porém, ser concretizado, a menos que seja equilibrado por uma profunda adoração daqueles Budas Dhyani que sustentam o cosmos. É preciso colocar deliberadamente a mente e o coração no campo magnético de atração do ideal, da poderosa Hoste de Dhyanis e Bodhisattvas. Pode-se pensar em tal Hoste como galáxias de seres iluminados que são forças cósmicas, fatos vivos na Natureza invisível e, ao mesmo tempo, exemplos brilhantes para a humanidade no mundo visível. Ao escutar tais exemplos e estudar os textos sagrados e nobres tradições que preservaram seus Ensinamentos, pode-se começar a assimilar o modo de vida exemplificado por tais seres. Assim, pode-se aprender a viver em um estado de aprendizado e desapego. Aprendemos com alegria e vigor enquanto ao mesmo tempo nos desapegamos lentamente do eu inconstante, medroso e furtivo. Depois de certo ponto, não se pode nem imaginar viver de outra maneira. Encontramos uma profunda satisfação neste modo de vida e, como resultado, somos capazes de encarar o mundo não como um receptor, mas como um doador. Na solidão da própria contemplação, pensamos naturalmente em corações famintos e almas negligenciadas. Podemos tentar alcançar tais almas e corações através de um ardente desejo e intenso pensamento.

Ao se respirar em nome dos deserdados do mundo, pode-se tornar um mensageiro de esperança para os outros. Todo mundo já teve a experiência, em períodos sombrios de dúvida e desespero, de receber um repentino lampejo de inspiração e esperança. A gratidão por essa luz misteriosamente recebida pode se tornar a base da fé e confiança de que alguém levar a luz aos outros. Se alguém persiste na solidão ao pensar em todos os seres deserdados, mas dignos de sua compaixão, pode alcançá-los em seu sono profundo e em seus sonhos. Através da força do que George William Russell chamou de O Herói no Homem, pode-se dar a eles essa esperança ou graça salvadora que os sustentará, quaisquer que sejam suas condições. Assim, formam-se laços magnéticos invisíveis com outros seres humanos, canais de transmissão que podem se mover em todas as direções. Fazer isso é ir além de qualquer concepção de salvação ou progresso individual com base em uma noção personalizada e localizada de amor ou luz. Aprende-se a se mover em direção ao sol, para que a sombra diminua, e se começa a entender o que é ficar diretamente sob o sol e não projetar sombra. Ao libertar-se da preocupação pessoal, o indivíduo se torna verdadeiramente confiante na capacidade de alcançar e ajudar os seres humanos - não importa a distância. Abandonando todos os rótulos externos, fichas e pseudoprovas de amor e luz, estamos preparados para nos banhar, por assim dizer, na luz e na verdade supernais e na ilimitada sabedoria e compaixão do Sol Espiritual.

A entrada para essa luz deve ser entendida não apenas em termos de uma metáfora mística. Também está ligada à presença de seres reais que se tornaram Bodhisattvas da Compaixão, raios fluindo de uma energia cósmica como Avalokiteshvara. Como o senhor que olha do alto, o Avalokiteshvara pode ser visualizado como se estivesse sentado em total contemplação e calma, envolto em uma extraordinária auréola dourada de perfeita pureza e amor. Ele sustenta no olhar toda a humanidade. Meditar sobre esse paradigma de todos os Tathagatas e Antecessores, Budas e Bodhisattvas, é restaurar o senso da abundância ontológica do reino espiritual. Assim, pode-se transcender concepções restritivas da história evolutiva da humanidade ou a falsa noção de que a espiritualidade humana é inteiramente dependente de eventos localizados no passado. Em vez disso, conheceremos a humanidade como extremamente antiga, estendendo-se por milhões e milhões de anos, sustentada de inúmeras maneiras por incontáveis salvadores, ajudantes e professores. Muitos deles eram andarilhos humildes em aldeias que não tinham marcas externas, não usavam etiquetas e não faziam reivindicações. No entanto, eles ajudaram e elevaram o coração humano, dando esperança aos outros e depois seguindo em frente. Suas vidas são um testemunho ininterrupto e vivo da onipresente força e presença da Tribo dos Heróis Sagrados na terra.

Voltar os olhos a essa perspectiva extraordinariamente universal é começar a ver que muitas perguntas que antes eram incômodas não são mais difíceis. Quando pensamos em amor separadamente ou em termos de contextos bilaterais, pensamos também em intenções particulares e conceitos externalizados da vontade. Essa vontade concretizada está ligada a provar algo, mostrando determinação em um contexto, principalmente através da verbalização e atuação. Quando pensamos em termos de vastas hostes coletivas de seres, unindo toda a humanidade através de laços invisíveis, estamos nos aproximando a uma ideia de desejo como uma força universal e impessoal. Quando nos inserimos na irmandade invisível dos verdadeiros ajudantes da humanidade, podemos aprender a fazer o que é possível - de acordo com a medida, o grau e a profundidade do conhecimento e do sentimento - sem gerar qualquer concepção falsa de desejo.

Em tudo o que fazemos e da maneira como liberamos a vontade superior, tiramos uma certa porção de uma fonte inesgotável e universal. Se entendermos isso, não pediremos para extrair mais do que realmente podemos usar, ou mais do que podemos sustentar adequadamente. Em outras palavras, começaremos a ver os truques da mente humana. É a grande enganadora e adversária do homem, já que tenta escapar do que pode ser feito ao exigir mais. Quando a mente insiste em saber se sua parcela de amor e luz é adequada em relação ao seu objetivo ou autoconcepção, torna-se a grande enganadora e escurecedora da luz e do amor que estão latentes em toda alma humana. Muitas questões supostamente filosóficas e preocupações espirituais não são nada mais do que os budistas chamam de attavada, a terrível heresia da separação. Elas refletem o erro filosófico de supor que todas as tendências, desejos e pensamentos formam algum tipo de entidade que é coesa e persistente e, acima de tudo, isolada do resto da humanidade. Isso é uma ilusão. Não existe tal entidade. Nenhum verdadeiro senso de individualidade pode ser localizado nesse agregado de tendências caóticas em constante mudança e de segunda mão.

Em vez disso, este agregado dos skandhas representa a participação kármica de um indivíduo nas acumulações coletivas de tendências de toda a humanidade. Todos os seres humanos, pode-se dizer, contribuíram para o cultivo de ervas daninhas, e todo ser humano tem sua parcela das ervas daninhas do mundo para serem usadas e cortadas. Ao mesmo tempo, todo ser humano precisa encontrar e plantar as sementes da sabedoria e da compaixão. Isso pode ser feito apenas cultivando a paciência e o poder da espera, enraizados na vontade de trabalhar com os ciclos da Natureza. Como o profeta ensina em Eclesiastes, existem diferentes épocas: épocas para semear e épocas para colher, épocas para viver e épocas para morrer. Isso é verdade em relação a todas as manifestações do amor, e os mais sábios sabem que o amor mais profundo está além da manifestação. Como escreveu Maeterlinck, no amor há silêncios tão profundos que aquilo que não se expressa flui com continuidade ininterrupta através das barreiras do tempo e do espaço. Esse amor mais profundo é muitas vezes perdido por causa de uma preocupação com o que pode ser demonstrado, o que pode ser aumentado, mitigado ou comparado. Para recuperar o potencial perdido da alma, é preciso repensar o que é real. Por um lado, existe aquilo que é universal e inclui tudo o que é potencial. Por outro, há toda a coleção de expressões e manifestações particulares, episódicas e finitas. Por mais vastas que sejam, no fim das contas são limitadas em relação ao conteúdo inesgotável de amor e de luz na alma imortal de todo ser humano e no coração de todo o cosmos.

Ao aprender a pensar dessa maneira, pode-se começar a discernir imensa beleza na ideia de que todo ser humano vive e ama a todo tempo – no simples ato de respirar. A maior parte desse processo é inconsciente ou não tem relação com desejos ou demandas particulares. Mas, no caso dos seres mais sábios, os mais illumindados mestres de compaixão, essa respiração é conscientemente benevolente e universal. Tendo se tornado consciente da enorme energia potencial dentro do coração do cosmos, eles são capazes de direcionar e canalizar essa energia para um grande número de almas. Eles aprenderam como ajudar determinadas pessoas em momentos específicos apenas através de tentativas e erros de toda uma vida. Eles reconheceram as consequências proliferativas de se fazer demais ou pouco. Através da prática, ao longo de milhões de anos e inúmeras vidas, os Bodhisattvas tornam-se inteligentes e hábeis na aplicação de sabedoria, compaixão, luz e amor.

Para ser capaz de apenas entender essas possibilidades em tais seres – nem sequer pode se pensar em mover nessa direção, precisamos afastar as divisões convencionais entre a cabeça e o coração. Frequentemente, supõe-se que é muito importante que a mente se torne mais afiada, mais inteligente. E também frequentemente pensamos no coração como sentimental. Ambas as noções são baseadas em conceitos errôneos. Nas vestimentas sutis dos seres humanos - no que é chamado “coração espiritual” - jaz a base da mais alta inteligência, ideação e criatividade. Portanto, do ponto de vista espiritual, não se pode ativar nenhum dos centros superiores do cérebro, a menos que tenha despertado uma centelha de fogo no coração espiritual. Muitos seres humanos são capazes, esporadicamente, de liberar extraordinários poderes, habilidades e lampejos de gênio. Essas habilidades intermitentes representam uma condição desequilibrada que é um reflexo do excesso e da deficiência em vidas anteriores. São acompanhadas por uma frustração kármica por não serem capazes de explorar e recuperar o conhecimento conscientemente, e esses indivíduos têm lições difíceis de aprender antes de criarem novos e melhores equilíbrios dentro de si.

Daí a importância, principalmente com as crianças, de retirar a ênfase indevida da mente e desenvolver um sentido do coração. Em vez de promover uma inclinação obsessiva para classificar a mente, deve-se incentivar uma concepção em evolução da excelência em relação ao coração. Isso não acontece automaticamente. Sem se tornar destemida e corajosa, uma pessoa não poderá liberar a potência e a força espiritual no coração. É preciso educar o coração na melhor verdade que se conhece. Essa verdade inclui a mortalidade do corpo, a imortalidade da alma e os meios de fazer essa alma imortal funcionar dentro de um corpo mortal. É crucial dar às crianças algumas das verdades fundamentais sobre a Sabedoria Divina e, em particular, ensiná-las a não apenas olhar para as coisas em termos de hoje e amanhã, mas também em termos de seus melhores e mais generosos impulsos. Durante toda a vida de aprendizado, eles podem fornecer a base de um destemor autêntico e da verdadeira universalidade da compaixão e do amor. É preciso incluir no coração pessoas que não se vê, o que requer uma imaginação ativa. Em última análise, uma capacidade de visualizar toda a humanidade. Isso envolve um equilíbrio dinâmico entre a contemplação de todos os seres que existem nesta terra e os relacionamentos com aqueles que estão por perto.

Na prática, isso requer simplificação e desenvolvimento de precisão - que estão na origem de toda etiqueta e boas maneiras. É preciso aprender a não fatigaras pessoas que estão ao seu redor. Fazer menos é fazer mais. Assim, teremos uma grande oportunidade de manter-nos intactos, sem entrar em síndromes de expectativa excessiva e desilusão rápida. Enquanto mantemos uma maior firmeza nas relações com as pessoas que nos cercam, vemos, ao mesmo tempo, além delas. Uma pessoa desenvolverá uma preocupação em ocupar seu lugar na família do homem e se tornar o que é chamado na tradição budista de um filho da família de Buda. Como os Bodhisattvas e os Budas, a pessoa se torna disposta a pensar em termos de servir a todos os seres na terra. Isso não é algo que se possa contemplar ou imitar em pouco tempo. Na verdade, o processo exigirá uma renovação repetida. Isso terá algum impacto no momento da morte e também um efeito distinto sobre o tipo de nascimento que a pessoa terá na próxima vida. Não imediatamente, mas eventualmente, mudará a corrente e o tropismo, a tonalidade e a coloração dos variados relacionamentos de uma pessoa com as vestes e seu uso.

Ao obter essa precisão, a pessoa se torna mais livre e, ao mesmo tempo, mais capaz de ajudar outros seres humanos. A mente de uma pessoa se torna mais disposta, vibrante e versátil, e ela se torna uma serva obediente de um coração que encontrou profunda paz em si mesmo. Uma vez que o coração tenha descoberto em si seu próprio fogo secreto, ele pode, através de várias formas de meditação e oblação diárias, ativar esse fogo. O fogo da devoção, de tapas, da sabedoria ou da verdade – qualquer que seja a nomenclatura, refere-se simplesmente aos aspectos diferentes daquilo que, em última análise, é o fogo dos Mistérios. É o fogo que representa a imortal soberania autosubssistente da alma humana individual. É capaz, em princípio, de se tornar um espelho autoconsciente de todo o cosmos. Portanto, também é capaz de alcançar o interior do santuário mais íntimo e afetar, aprender, ensinar e ajudar tudo o que existe. Isso requer treinamento deliberado e sistemático por causa dos diversos tipos, velocidades e níveis de comunicação entre os seres com base nas vibrações do reino do coração. Quanto mais hábil se torna o uso de oportunidades kármicas para participar dos modos parciais de amor e aprendizado deste mundo, mais se aprende como lançar um pouco de luz para alguns seres humanos sobre algumas coisas, enquanto ao mesmo tempo se procura incessantemente além do horizonte de alguém em direção ao potencial ilimitado dentro de todos.

Eventualmente, pode-se chegar a um ponto em que se tem o grande privilégio de não ver mais o mal e a limitação - porque perderam o fascínio. Na verdade, são uma representação grotesca de confusão, erro e ilusão – em última análise, baseada em cativeiros para a ilusão. São fúteis, míopes e duram pouco. Contudo, enquanto houver elementos em tantos seres que se prendem em recompensas de curto prazo, o mal e a limitação se agravam. Embora em princípio eles possam parecer um incrível monstro todo-poderoso, logo vemos que isso não é verdade. Esta é uma forma de proteção para aqueles que estão no Caminho e preocupados com o verdadeiro trabalho da raça humana. Esse trabalho é contínuo, embora oculto por uma corrente de invisibilidade, porque a maioria das pessoas simplesmente se prende nas visões e sons externos da realidade. Eles são prisioneiros de exageros de forma, limitação e maldade. Daí a importância, no nível individual, de cada ser humano dizer, como Jesus: "Ponha-se atrás de mim, Satanás". E cada um tem que o dizer por si só.

Enquanto houver luz, haverá sombra. No entanto, todo ser humano pode, a qualquer momento, desviar o rosto da sombra e ir em direção à luz do sol. Sempre que alguém estiver com outras almas, pode-se perguntar: "Amo mais os outros do que a mim mesmo? Aceito menos e dou mais aos outros? Olho, de verdade, para dentro de mim, dentro de minha mente, do meu coração? Olho para os meus atos em relação a outros seres humanos? Posso saudar o Divino dentro das pessoas pela maneira como olho para elas? Posso lançar luz e também ser grato pela luz que recebo diariamente dos outros?" Ao fazer perguntas desse tipo, descobriremos que todos os incrementos de mudança se tornam significativos. A vida se torna não apenas digna de ser vivida, mas também consagrada. A mente e o coração recuperam a imanência do ideal de Amor e Luz sem limites.

Hermes, março de 1985 – Clique AQUI

Leia O TRIBUTO para Sri Raghavan Iyer AQUI

O editor deseja agradecer THEOSOPHY TRUST MEMORIAL LIBRARY

 

Text Size

Paypal Donate Button Image

Subscribe to our newsletter

Email address
Confirm your email address

Who's Online

We have 169 guests and no members online

TS-Adyar website banner 150

EUROPEAN SCHOOL OF THEOSOPHY 2021 Logo

Facebook

itc-tf-default

Vidya Magazine

TheosophyWikiLogoRightPixels