Ananya Sri Ram – EUA

A autora
Desde o início de nossos estudos teosóficos, o aluno é incentivado a compreender que a vida não existe apenas no reino físico, mas também nos mundos invisíveis. Para o estudante sério, o ocultismo, ou aquilo que está oculto, não é um mito, mas um fato. Uma miríade de inteligências dança e gira, unindo-se, separando-se, fundindo-se em uma só, tornando-se duas, e assim por diante. A vida invisível é projetada, impressões são feitas, a fisicalidade é preenchida com estrutura, forma e cor. Para alguns, é somente quando conseguem ver algo fisicamente que acreditam que a "vida" está presente. O que muitas vezes não compreendem é que aquilo que permanece invisível aos olhos humanos e à consciência está bem vivo.
Invisível e imperceptível não significa ausente ou vazio . Para aqueles que sabem que isso é verdade, a vida cotidiana assume um significado diferente.
No prefácio de seu livro A Vida Interior , Charles Leadbeater escreve sobre a atmosfera de Adyar. Ele diz:
Em nenhum outro lugar do mundo, neste momento [julho de 1910], existe um centro de influência como este — um centro constantemente visitado pelos Grandes Seres e, portanto, banhado por seu maravilhoso magnetismo. As vibrações aqui são maravilhosamente estimulantes, e todos nós que vivemos aqui estamos, portanto, sob uma tensão constante de um tipo muito peculiar, uma tensão que faz aflorar tudo o que há em nós. Fortes vibrações de outros planos atuam o tempo todo sobre nossos corpos, e as partes de nós que podem, de alguma forma, responder a elas são, assim, elevadas, fortalecidas e purificadas. Mas é preciso lembrar que há outro lado da moeda. Pode haver em cada um de nós algumas vibrações cujo caráter esteja muito distante do nível dessas grandes influências para entrar em harmonia com elas... seu efeito sobre aqueles que são constitucionalmente incapazes de se harmonizar com suas vibrações pode ser perigoso em vez de benéfico.
Embora essa citação se refira ao poder e à atmosfera de Adyar, que é "banhada" pelo magnetismo dos Irmãos Mais Velhos que ajudaram a fundar a Sociedade, surge a reflexão sobre que tipo de magnetismo criamos ao nosso redor e se é possível revelar tal vibração, especialmente quando não vivemos perto de um centro como Adyar.
Ao longo dos ensinamentos de Madame Blavatsky, ela enfatizou a necessidade de os membros da Sociedade Teosófica estarem em harmonia uns com os outros. Podemos nem sempre concordar com os pontos de vista uns dos outros, mas isso nunca deve nos impedir de sentir admiração e compaixão pelo ser que está diante de nós. Nós, como membros, devemos ser o núcleo da universalidade. Quando essa harmonização acontece, a energia se torna palpável. Muitos de nós conhecemos essa sensação em menor escala quando trabalhamos juntos, de forma altruísta e alegre, como um grupo. Há uma sensação de "unidade", que Joy Mills frequentemente mencionava em seus escritos.
Na seção três, intitulada “A Atitude Teosófica”, do livro de Leadbeater, ele afirma que:
… o ocultismo pode, de fato, ser resumido desta forma: é o estudo de muito do que é desconhecido pelo ser humano comum — a aquisição, portanto, de uma grande quantidade de novos fatos e, em seguida, a adaptação da própria vida a esses novos fatos de uma maneira razoável e sensata.
Portanto, o bom senso deve ser mantido “acima de tudo e em todas as circunstâncias” para qualquer estudante. Leadbeater está falando de um ponto de vista ocultista ao mencionar a infinidade de novos fatos, mas para muitos que iniciam o caminho espiritual, o estudo do eu interior pode frequentemente trazer à tona coisas que antes não eram reconhecidas. Hábitos, comportamentos, pensamentos repetitivos, preconceitos e assim por diante, invisíveis, mas não ausentes, podem lentamente vir à tona e serem observados.
Segundo o site On-line Etymology, o termo "senso comum" teria sido cunhado por Aristóteles "para descrever um sentido que une os cinco sentidos externos" e nos permite "perceber os objetos de forma coesa". É um sentido interno que "processa as sensações em uma experiência coerente". Com o tempo, o senso comum passou a ser considerado "entendimento ordinário". Significando que a pessoa possuía bom senso e uma "capacidade mental básica" para não parecer "tola ou insana". (Poderíamos escrever um artigo inteiro sobre tolice e insanidade, mas isso fica para outro dia.)
É interessante observar o quanto do que acontece dentro do ser humano é interno e, portanto, invisível. E, no entanto, está longe de estar ausente. Para descobrir o mundo em que vivemos, para compreender as forças e energias que compõem o mundo natural, para reunir novos fatos, devemos descobrir e usar a nós mesmos como o microcosmo do macrocosmo. Até que nos compreendamos por meio do autoconhecimento, navegar pelas profundezas deste mundo incrível ou uns pelos outros se torna difícil.
O autoestudo é um equilíbrio delicado. Em ambos os extremos, existe a possibilidade de se tornar egocêntrico, seja por focar-se demais em si mesmo, seja por não focar de forma alguma. Requer o bom senso descrito por Aristóteles, utilizando a intuição para que haja uma experiência coerente. Passar o tempo constantemente se observando sem fortalecer as próprias fraquezas ou permitir que elas dominem a vida não proporciona qualquer tipo de estabilidade. Uma boa prática inicial é simplesmente observar o que surge sem reagir e deixar ir. À medida que se pratica isso com mais frequência, uma intuição interior pode aprofundar a prática e ajudar a direcionar o caminho adiante.
Retomando a ideia de criar um magnetismo de tranquilidade em nossas vidas e no ambiente em que vivemos, mesmo não estando perto de um centro espiritual como Adyar, o autoconhecimento é a chave para criar esse centro dentro de nós e, consequentemente, transformar o que nos rodeia em lugares de paz. Como mencionado anteriormente, muito do que acontece dentro de nós é invisível, mas não deixa de ter impacto. Nossos pensamentos e emoções são como ondas de rádio que afetam tudo ao nosso redor, inclusive nós mesmos. Estudos de biofeedback mostram que a mente é uma ferramenta poderosa e que todos nós vibramos em uma frequência específica. Aqueles que são sensíveis a essas vibrações muitas vezes se sentem confortáveis ou desconfortáveis, dependendo se a vibração à qual estão expostos ressoa com eles ou não.
Leadbeater, como muitos sabem, era conhecido por suas pesquisas sobre clarividência. Ele alertava os alunos para que se atentassem a coisas como egoísmo, críticas, fofocas e preconceito. Sobre o preconceito, Leadbeater afirma: “Cuidado com os primeiros sinais de suspeita: eles distorcem tudo”. Tais coisas causam desarmonia na mente e criam uma sensação de separação de si mesmo e dos outros. Ele afirma que o preconceito “é uma espécie de crescimento no corpo mental e, claro, quando uma pessoa tenta enxergar através dessa parte específica do corpo, não consegue ver com clareza. É, na realidade, um ponto congestionado no corpo mental, um ponto em que a matéria não está mais viva e fluindo, mas estagnada e apodrecida”. As palavras usadas aqui parecem duras até que observemos o mundo atual com os severos preconceitos que temos em relação àqueles que falam outro idioma, vivem outro estilo de vida, rezam para um Deus diferente. Não podemos dizer que não temos preconceito. Se não tivéssemos, o sofrimento de várias populações não existiria. Nem o sofrimento de seres sencientes ao redor do mundo.
Focar mais em pensamentos de compaixão, paz, não reação, palavras gentis e ações bondosas é uma forma de elevar nossa vibração, criando uma carga magnética repleta de amor e sabedoria que espalha sua fragrância revitalizadora entre muitos. É por isso que tantas pessoas são atraídas pela atmosfera dos centros espirituais, pois essas práticas são realizadas diariamente por aqueles que ali vivem. Tais centros se tornam canais para o poder dos Seres Sagrados, potencializando assim o trabalho teosófico. Contudo, todos nós podemos nos tornar canais de paz e amor quando nos comprometemos com o trabalho e nos oferecemos de todo o coração.
